A festa.

Fui convidada pra uma festa. Aniversário de 1 ano da filha não sei de quem. Eu fui, meio sem querer ir, mas fui levar meu filho.
Buffet infantil com salão de milhões de quilômetros quadrados. Balões na porta formavam o nome da menina em tamanho gigantesco, e um túnel de balões seguia mais a frente até a porta de entrada principal.
Fotógrafos profissionais devidamente uniformizados e identificados fotografavam cada convidado que chegava, bem como câmeras filmavam tudo que acontecia. No telão, uma projeção ao vivo dos ambientes da festa misturava-se a um filme-homenagem a aniversariante com fotos dos melhores momentos de sua vida (que completava então 365 dias). 
Garçons serviam sucos e refrigerantes as crianças, para os pais tinha cerveja importada, vinho tinto, whisky ou champagne. Canapés dos mais variados, um corredor de barraquinhas especializadas serviam tradicionais salgadinhos, batatinhas, crepes, pipoca e hot-dogs. Além disso, o cardápio personalizado com as iniciais da aniversariante em letras rebuscadas (que, por sua pouca idade, ainda não sabe ler) informava uma variedade de pratos de entrada, jantar e sobremesa que seriam servidos a la carte.
No mezanino, um DJ tocava músicas selecionas, alternando entre músicas infantis, populares e dançantes. Uma pista de dança com luz negra fazia a alegria de adolescentes e jovens adultos. Do outro lado, toda sorte de brinquedos de parque de diversões funcionavam com monitores especializados. No “Espaço Baby”, duas berçaristas brincavam com bebês de até 2 anos e uma artista plástica pintava o rostinho das crianças.
Quase me esqueço de mencionar a enorme mesa de doces, decorada com flores naturais e pérolas, com doces dos mais variados tipos, todos personalizados com as inicias da menina. O bolo tinha cerca de 5 andares e, segundo informações alardeadas pela avó paterna, tinha sido feito pela Fulana Chic dos Bolos Caros, famosa confeiteira local.
O pai da criança veio gentilmente falar conosco, meros mortais convidados, agradecer nossa presença e informar que a aniversariante ainda estava no salão de beleza, mas já já chegava. Uma meia hora depois, a menina chegou acompanhada da mãe. A mãe usava um bandage dress Herve Leger, sapato Laboutin, cabelo e maquiagem dignas de mãe de noiva. A noiva, quero dizer, a menina também estava maquiada (sim! Blush, rímel e gloss) com os cabelos a la gisele, e um lindo vestido feito com o mesmo tecido que decorava as paredes, mesas e cortinas do salão, tudo planejado e executado pelo famoso estilista da cidade, Sr. Chiquetê Mór. 
A festa seguii assim, num clima tenso e nada descontraído, a maioria das mães com medo de que suas crianças quebrassem qualquer coisa, imagina só ter que pagar por aquilo alí…
De tempos em tempos eu via passar a Dona Persona com seu microfone entrevistando toda a galera, ela é apresentadora local de um programa de colunismo social. Não me entrevistou, afinal, quem sou eu com o meu jeans da C&A e uma polo branca da hering? Provavelmente babá de algum menino, né…
Enfim chegou o momento do parabéns. A mãe vem com a menina no colo, que dessa vez resurge com os cachos presos em um coque alto e um novo vestido do estilista Chiquetê, dessa vez todo rodado, com saia de tule e, nas costas, uma armação que sustentava asas de fada (ou de anjo, sei lá).
Canta-se o parabéns. A menina alheia a tudo, não parecia compreender a dimensão do acontecimento que estava rolando alí.
Eu fiquei pensando… se o aniversário de um ano foi assim, que graça vai ter quando chegar a festa do casamento da menina?

Categorias: Sem categoria | Deixe um comentário

Como perder amigos e afastar pessoas.

Depois do meu post sobre como eu perdi contato com as amigas da escola, esse tipo de pensamento volta e meia invade o meu “ser” (eu, um ser de 1,58m de altura, sendo 1 metro e 20 só de perna, tal qual Ana Hickmann).

Me lembrei do Laerte, um amigo que eu tinha quando estava quase terminando a faculdade. As más línguas diziam que ele era viado, as boas línguas diziam que ele era gay, ele dizia que era macho e eu não dizia nada, porque sinceramente não dava pra saber se ele era ou não, e com toda a sinceridade, não faria diferença nenhuma. 

Laerte era uma pessoa até que legal, tinha uns problemas familiares, mas ninguém tinha nada com isso. Ele me telefonava todos os dias pra conversar. Não tinha nem assunto pra tanto telefonema. Daí um dia o Laerte foi meio grosso comigo, quando foi fazer uma brincadeira. Ele veio com um papo de que eu não me divertia nunca, disse que eu era o tipo de pessoa que devia levar um livro de medicina até pro banheiro. Pode parecer uma frase boba, uma brincadeira, mas naquele contexto e naquele dia foi uma baita de uma grosseria. Na época eu tava terminando a faculdade, então eu levava mesmo meus livros até pro banheiro se preciso fosse. Além disso, estava passando pela fase do viva las gaygas com meu pai, mas era tudo velado e escondido do mundo, então eu não podia nem chorar nem falar com ninguém. Depois que ele me veio com essa grosseria, eu dei uns cortes nos telefonemas. Não atendia, mandava dizer que eu não tava, não respondia mensagem… enfim, era a desculpa que eu queria pra me afastar. E foi o que aconteceu, nunca mais ouvi falar do Laerte.

Até que um dia, uns 3 anos depois, Laerte me ligou no dia do meu aniversário. Eu fingi que não reconheci a voz, mas acabei conversando, me deu os parabéns, felicidades, e aí, quanto tempo, como vai, beleza, coisa e tal, até mais. Não gostei do telefonema. Não gosto quando as pessoas me ligam, afinal eu não ligo pro seu celular que é pra você não ligar pro meu. No outro dia, no final da tarde, Laerte ligou de novo. Começou a conversar, como se nada tivesse acontecido, como se ele me ligasse todos os dias desde o último telefonema há 3 anos atrás. Blá blá blá de lá, conversa fiada, papo furado, Laerte não calava a boca. Eu falava a-ham, a-ham, sei. E ele tagarelando. Depois de uns 5 minutos de tagarelice, eu mandei uma que, na hora não percebi ser tão grosseiro, mas hoje eu vejo que foi muito, mas muito, mas muito grosseiro. Eu disse:
- Escuta aqui, Laerte, é todo dia agora?
- Todo dia o que?
- Vai me ligar todo dia? Ontem foi meu aniversário, mas e hoje? Nem tem assunto pra hoje. Vai me ligar todo dia?
- Ah… eh… ué, eu ligo todo dia pra quem eu gosto, ligo pra você, pra fulana, pro fulano, pra beltrana…
- Ah, sei.

A conversa miou aí. Laerte nunca mais na vida me ligou. Não sei onde vive, não sei se tá vivo ou morto. Não quero saber, não me interessa, ele nem era assim uma pessoa tão agradável.

Me lembrei desse caso essa semana. Um dia depois de me encontrar com a Jussara no shopping (lembra da Jussara, do post sobre as amigas do colégio com quem eu não mantive contato?). Eu tava indo pro estacionamento com meu filho, procurando a chave do carro, quando ouvi uma voz me chamando. Era a Jussara. Parei, conversamos pouco. Acho que não fui simpática, mas eu não fui grossa, nem nada. Só foi um “oi, tá boa, quanto tempo. tchau”. 

Pensei nisso também porque hoje uma amiga da faculdade veio puxar papo no facebook. Falou umas asneiras, mas eu não respondi direito. Fiquei só pensando o que ela estaria armando, porque quer falar comigo, será que vai pedir dinheiro emprestado… coisas do tipo.

E então percebi que eu, com toda a minha vasta experiência, poderia escrever o best-seller Como Perder Amigos e Afastar Pessoas. Ia vender milhares de cópias. Mas nada de tarde de autógrafos, que é pra não correr risco de encontrar nenhum conhecido.

Categorias: Sem categoria | Deixe um comentário

Não vamos permitir.

Já viu a propaganda dos sabonetes assepxia? É uma que o cara diz “sou dermatologista e também sou pai, e como pais não vamos permitir que nossos filhos sofram com a acne”, e ele dá uma super enfatizada no “não vamos permitir” como se fosse uma coisa muito grave… 

Eu fico pensando, tem pai que permite o filho quebrar tudo no playground, permite o filho xingar a professora, permite o filho deixar tudo espalhado e não arrumar sua própria bagunça, permite filho xingar a própria avó… e aí vem com essa de não permitir ter espinha na adolescência.

Ô campeão, espinha todo mundo tem, viu? Não adianta você não aceitar, não permitir, espernear e nem comprar assepxia. Vai fazer o que? Vai bater no menino?

-Pai, saiu um cravo aqui no meu nariz, ó!
- Ah, moleque vadio! Vou te dar um safanão! Não permito que você tenha cravos e espinhas!
- Pô, pai, fica bravo não. Relaxa. Toma aqui, ó, uma maconha que eu comprei perto da escola…
- Ôooo, filhão, que bonito, dividindo suas coisas com o pai. Te amo, filho.

 

Categorias: Sem categoria | Deixe um comentário

Super mãe é o caralho

Tenho nojo de super mãe. Aquela mulher que trabalha fora, vai a academia, está sempre bem arrumada e ainda tem tempo pra curtir a night, mesmo sendo mãe de três filhos. Também tenho nojo do repórter babaca que vem perguntar pra ela, em uma entrevista super descolada, qual é o segredo de uma super mãe. Tenho nojo da resposta da vadia, que vai dizer que o segredo é muito amor, garra, determinação e organização.

Mentira. O segredo da super mãe é a Jandira. A Jandira, que tá em pé lá atrás, descabelada, com um uniforme que deveria ser branco mas está encardido porque ela não teve tempo de lavar com q-boa. A Jandira, que tem as unhas maltratadas e a mão cheia de calo de lavar roupa de menino tudo na mão. A Jandira, que tá com uma queimadura na mão porque precisou segurar a panela quente e carregar menino chorando ao mesmo tempo. A Jandira, que hoje tinha que passar as roupas que ficaram no varal, mas não teve tempo porque tem que levar o Felipinho na natação, o Gabrielzinho no caratê e a Maluzinha no balé. A Jandira, que aguenta birra sem poder dar bronca nem botar limite.

A Jandira é a mãe de verdade desses meninos. A super mãe pegou o papel da tia legal. Sim, se você é super mãe, carregue sua culpa porque você não é mãe de verdade, prontofalei. Brincar com os filhos no final de semana e dar uma bronca no estilo “Filhooooo, não faz isso, a mamãe fica tristeeee, filhooooo” não é ser mãe. É ser super mãe.

Agora vai lá, campeã. Vai dar entrevista pra Fátima Bernardes fazendo pose de bacana. Super mãe.

 

Categorias: Rapariga FDP | Deixe um comentário

Eu não vou me adaptar.

Acho que já deu pra perceber que eu não sou gente boa.
Tudo bem, eu me aceito como eu sou. Nojenta.
Eu não fico pensando em como seria a minha vida se eu fosse gente boa. Eu não sei o que é ser gente boa, então pra mim não faz diferença. É tipo você perguntar pro cachorro que comeu ração a vida inteira se ele sente falta de se lambuzar numa carne moída com macarrão. Ele nunca comeu isso, logo não sente falta, certo?

Bom, era assim que eu pensava até segunda feira passada, quando a gente tava comendo carne moída com macarrão e o cachorro da minha mãe, que come ração há 12 anos, sentou-se ao nosso lado e começou a chorar olhando pra comida. Isso nunca tinha acontecido. Ele chorava copiosamente, se é que um cachorro faz isso, e ficou claro pra mim que apesar de jamais ter comido refeição tão boa, ele sentia falta daquilo.

O final dele foi feliz. Minha mãe encheu um prato e deu pra ele. Nunca vi um animal se esfregar tanto no chão de alegria por causa da comida. Parecia eu, rolando na cama depois da janta…

Mas aí eu fui pra casa e passei a semana com aquilo na cabeça. E depois veio o facebook, essa rede anti-social tão útil a todos os fofoqueiros e invejosos, jogar na minha cara que a minha vida – e a minha timeline – seria bem diferente se eu não fosse a nojenta que eu sou.

Lá estavam Alana e Jussara, minhas melhores amigas do segundo grau, comemorando o chá de bebê de uma delas. Alana vai ser mãe e Ju, a madrinha. A festinha toda rosa, elas fizeram juntas toda a decoração. Eu não fui convidada. Obviamente, por minha causa mesmo. Me afastei delas quando tive a chance, assim que passei no vestibular e nunca mais entrei em contato. Aproveitei pra não responder qualquer contato que elas tenham feito. Observe bem, esse é um problema meu, não é por mal. Não havia e não há nada de errado com elas, eu é que não consigo manter amizades. Não estou com inveja nem reclamando que as duas me esqueceram, claro que não, elas mantiveram a amizade e eu tinha a chance de ter feito parte disso, mas não consegui. Sem reclamação, apenas constatação.

E desde que eu vi aquela foto, fiquei com o cenário na cabeça. Aquela festa rosa, os balões, os docinhos, a alegria, a Alana barrigudona, a Jussara com a camiseta brega “Se você me acha linda deveria então conhecer minha afilhada”… enfim. Eu não estava lá. E me senti como o cachorro olhando pro prato de macarrão com carne sem nunca ter comido.

Eu poderia ter tido amigos. Eu poderia ter um bom relacionamento com as pessoas. Eu poderia ser simpática. Eu poderia pelo menos sorrir de vez em quando. Mas a vida, as circunstâncias e as es escolhas que eu fiz me levaram a ser a Sofia que eu sou hoje, nojenta.

Então, nojentamente, após esses cinco minutos de arrependimento por tudo, voltei a mim. A Alana tá gorda e eu acho é pouco porque sempre me chamou de obesa e a Jussara continua solteirona e galinha. Que se fodam.

Categorias: Rapariga FDP | Deixe um comentário

A noiva do Chuck

Eis-me aqui, com mais um problema com visitas.
Povo parece que não me deixa em paz. Gente, escuta e entende de uma vez por todas, eu não gosto de receber visita. Eu não vou na sua casa pra você não vir na minha! Será que é mesmo assim tão difícil de entender e respeitar?

Aconteceu no mês passado. Um colega de trabalho do Renato vai casar (pra quem não sabe, Renato é o meu marido). Pela sexta (sim!) vez. Olha, não é querendo falar mal de divorciado não… se o cara casou e não deu certo uma vez, ok, ele pode tentar de novo. Se o cara casou de novo e não deu certo de novo, você começa a pensar que ele tem azar. Aí ele casa de novo, e acaba de novo. E de novo. E de novo. Peraí, será que o problema não tá é com ele, não, hein? Sinceridade, gente, eu não casava com um cara desses. Não é possível que ele deu o azar de se casar cinco vezes com cinco mulheres malvadas/piranhas/ingratas/ruins. Mas tá bom, vamos lá, ele vai casar de novo, a moça realmente acredita que dessa vez vai dar certo. Deixa ela acreditar, né, a vida é feita de sonhos. Nem vou dizer pra ela que eu não dou nem 3 anos pra acabar.

Voltando ao problema da visita. O rapaz avisa meu marido que quer vir em casa pra trazer o convite. Eles trabalham juntos há 13 anos, almoçam no mesmo bandeijão de firma há 13 anos, estacionam seus carros um do lado do outro há 13 anos. Será que não era mais fácil entregar o convite lá no emprego mesmo?

- Não, Sofia, é que ele não vai convidar todo mundo. Fica chato ele levar meu convite e o povo que não vai ser convidado ver… 
Eu ia falar pra ele que ninguém ia se sentir ofendido, afinal, no sexto casamento, a gente já espera que role um rodízio de convidados, né, tipo “amigo com placa final 4, quarto casamento”…
- Tá bom, Renato, fala pro rapaz vir amanhã a noite então. Hoje não dá, a casa tá bagunçada, a Duda não vem trabalhar desde ontem e eu tô com dor de barriga, faxinar e peidar ao mesmo tempo não me parece uma opção.

Em tempo, Duda é a moça que trabalhava aqui em casa. Ela faltou uma semana seguida pra estudar num intensivão pra concurso. Fiquei mega orgulhosa quando ela passou, mas morro de saudade porque ela era organizada e muito honesta.

Então, o bebum veio no outro dia acompanhado da vadia, falaram pelos cotovelos sobre assuntos aleatórios, demonstrando um surpreendente conhecimento das leis e de como burlá-las quando o assunto era a pensão alimentícia das ex-mulheres e ex-filhos que ele não queria sustentar. Nos entregaram um papel que não era o convite de casamento e sim um convite pra padrinhos, e foram embora.

Um mês depois aparecem de surpresa aqui, numa segunda às 22:30. Meu bebê, que tinha custado a dormir, acordou assustado. Ah, nem. Enfim, vieram, dessa vez com o convite de casamento, que era um papel exatamente igual ao anterior, só mudava a cor do envelope. Mais duas horas de conversas vazias sobre assuntos estúpidos e, quando acabou, eu pensei que finalmente estava livre deles.

Ah, a ilusão…
Duas semanas depois a vadia telefona. Domingo de manhã, eu dormindo depois de uma madrugada em claro com meu filho chorando, a mulher liga querendo “dar uma passadinha aí”.
– Oh, flor, infelizmente agora não vai dar. Pode ser amanhã?

Pode. Ela disse que podia. Arrumei a casa inteira, que tava uma baderna desde que a Duda pediu as contas. Foi até bom, porque fiz uma mega faxina. Sete da noite ela liga e diz que passa em casa daqui a pouco. Oito. Nove. Dez horas. A mulher telefona e diz que não deu… Pode ser amanhã?

Pode. Eu disse que podia. A casa já tava arrumada, o bagunça do dia foi fácil organizar. Só colocar os brinquedos do meu bebê no lugar e pronto. Sete da noite ela liga e diz que já tá chegando. Oito. Nove. Dez horas. A mulher telefona e diz que, de novo, não deu. Fica pro final de semana.

Chega o sábado. Sete e meia da manhã, quase oito. Ela liga. Não atendo. O noivo dela liga. Não atendo. Umas quatro vezes, meu filho dormindo, nós dormindo. Não atendo mesmo. Quando é de tarde eu entro no facebook e tá lá o drama estabelecido.
Atualização de Status de Boçal Bebum Chifrudo e Mal Pagador: “Ai, como é difícil agradar as pessoas. Queria tanto presentear meus amados padrinhos mas as pessoas não querem nos atender. Estou sacrificando meu fim de semana para fazer do mundo um jardim de rosas e sou tratado como um espinho.”

Eu juro pra você que ele escreveu exatamente assim. O Renato ligou pra ele e, com a liberdade de 13 anos de amizade, disse a verdade:
- Rapaz, meu filho é neném, tava dormindo , minha esposa passa a noite toda amamentando, eu também não dormi. Que viadagem é essa de rosas e espinhos?
– Ah, Renato, não é nada disso, desculpe, eu estava de cabeça quente, a noiva me apurrinhando, desculpe…

Na segunda feira, no trabalho, ele não olhava na cara do Renato. Disse pra um colega de trabalho que o Renato não quis receber ele no fim de semana porque “a esposa dele não deixou, ficou dormindo até tarde” e meia hora depois coloca no facebook: Basta uma mulher idiota pra destruir uma amizade.
Como é que é??? Eu sou a idiota??? Filho, eu nem te conheço, nunca fui na sua casa falar sobre pensão não paga pra filho, nunca avisei que ia e deixei de ir, nunca liguei pra você as sete da manhã de sábado e não tenho quinze anos pra ficar mandando indireta em rede social. Quem é idiota aqui?

Enfim, após dias de tromba que ele fez no serviço, a noiva dele passa aqui em casa e deixa o presente dos padrinhos. Eu imaginando que era uma coisa de outro mundo, porque pra fazer o inferno que eles fizeram, achei que iam presentear cada padrinho com um bangalô em Bora Bora. Mas que nada… uma gravata preta e quatro pedaços de papelão embrulhados em chita.

Respira.
Vamos analisar.
Gravata cinza. Todos os padrinhos devem usar a gravata preta. Olhei aquela gravata, peguei com meus dedos calejados de tanto lavar roupa de neném a mão, com minhas unhas sem fazer há meses, e a minha cabeça – com o cabelo ensebado porque não dá tempo de lavar – reproduziu frente aos meus olhos, docemente decorados com profundas olheiras, uma sucessão de imagens aleatórias que apenas uma mãe de recém nascido poderia vislumbrar após meses sem dormir ou tomar banho direito. Eu vi uma gravata preta, depois vi todas as cores do mundo, vi um televisor antigo com barras coloridas, vi o arco-íris, vi meu pai no desfile da parada gay, vi uma gravata preta. Daí olhei pra caixa de presente e vi aqueles quatro papelões embrulhados em chita e eu juro, eu não sei o que era aquilo. Meu marido achou que era um chapéu. Minha mãe disse que era um jogo americano. Pra mim, era papelão embrulhado na chita.

No final, tudo deu certo. Eles se casaram, nós fomos os padrinhos entre outros 40 casais (nunca entendi essa de colocar tanto padrinho assim), a noiva entrou vestida de baiana (juro, gente, tava feia) e eles foram de lua de mel pra selva amazônica. Espero que não voltem nunca mais na minha casa. Beijos, não me visita.

Categorias: Rapariga FDP | Deixe um comentário

Pela não-superação dos problemas

Tem uma coisa que me irrita profundamente: o exemplo de superação. Qualquer porcaria que acontece na vida, neguinho já vira um exemplo de luta e superação, garra e superação, força e superação…
Pra mim que superação de cu é rola.
Quantas vezes por dia temos que acompanhar histórias emocionantes no jornal, do tipo:

Seo Geraldo é carteiro, estava exercendo seu ofício quando foi mordido por um cachorro. Mas Seo Geraldo é raçudo, foi ao postinho e tomou a anti-rábica. Hoje, apesar da dor na bunda após a mordida, Seo Geraldo apareceu pra trabalhar e garante que perdoa o cachorro.

ou

Aninha tem 23 anos. Aos 14 anos foi atropelada por uma manada de elefantes bêbados. Aninha quebrou a unha mas não se intimidou. Hoje Aninha é manicure e levou a medalha de ouro no Campeonato de Francesinha para Onicofágicos de Capela do Alto.

ou ainda

Wilson anda para trás…

Não, não, isso era um comercial…
Enfim, hoje tava fazendo supermercado e uma mulé resolveu contar a história dela pra mocinha da degustação de café . A mocinha não fingiu estar interessada, tava bem na cara que se ela encontrasse um buraco pra se enfiar e sumir dalí, ela ia, mas isso não impediu a mulé de contar pra quem quisesse ouvir sua história de garra, força, malemolência e… superação.
Eis que a mulé foi assaltada na rua. Ladrão chegou nela gritando perdeu, com arma em punho e levou o carro. Ela chorou, sofreu, foi na delegacia e fez o boletim de ocorrência. Dois dias depois, chorando e sofrendo, a polícia achou o carro e devolveu pra ela. Isso foi uma liação na vida dela porque agora ela sabe o verdadeiro valor das coisas. A Pajero dela voltou pra garagem, felizmente, mas hoje ela olha para as coisas que ela pode ter e dá muito mais valor a tudo e a todos (sic). E é por isso que hoje em dia ela valoriza muito a mocinha que serve o café no supermercado, “porque pessoas como você  que trabalham tanto e ganham pouco merecem ser bem tratados porque preferem trabalhar mesmo que seja servindo um cafezinho do que sair por aí assaltando”.
Eu juro que se eu fosse a moça do café, eu gritava perdeu e tomava o café dela. Quer dizer então que só quem ganha pouco é que vira bandido? Enfim, pra mulé, estavam alí reunidos dois exemplos de superação: ela própria, que superou seu trauma do assalto e recuperou sua Pajero, e a mocinha do café, que podia estar matando, podia estar roubando, podia estar se prostituindo, mas não, estava alí servindo um café.
Não é porque a moça ganha pouco que tem que ser ou bandida ou exemplo aos outros. Não é porque roubaram seu carro que você tem que ser exemplo de alguém que valoriza as pessoas do mundo. Isso não é superação. Quem realmente precisa superar alguma coisa sabe que superação não existe. Ninguém supera nada. Quem passa por um problema real nunca vai superar aquilo que aconteceu simplesmente porque, repito, NÃO EXISTE SUPERAÇÃO.

Eu sou a favor de todo mundo sofrer. Sofrer muito. Mas sofrer uma dor sofrida, uma dor sem jeito, uma dor sem fim, uma dor que você vai acordar todo dia pensando nela e vai lembrar dela na hora de dormir. Daí eu quero ver neguinho chegar e achar que existe superação em alguma coisa. Não há superação na vida. Existe a dor e existe o tempo e existe a vida. O tempo passa, a dor continua e a vida segue. O tempo não ameniza a dor mas a vida continua, e você precisa viver. Mesmo que a sua dor seja enorme, uma hora você vai precisar levantar nem que seja pra ir ao banheiro.
Eu passei por algumas dores na minha vida. Duas delas quase me mataram. A primeira foi ver meu pai se tornar uma tartaruga ninja mutante enquanto tentava literalmente matar minha mãe, aos poucos, com tortura psicológica, espancamentos eventuais, humilhações e maldades sem fim. A segunda foi a morte do meu filho. O intervalo entre as duas foi de 10 anos. A segunda doeu muito, mas muito, mas muito mais do que a primeira. O tempo passou. As minhas dores estão aqui comigo. A vida continuou. As dores fazem parte de mim. E eu não quero superá-las. De jeito nenhum. Sentir a dor que eu senti faz parte de quem eu sou. A minha dor me formou, me modificou e me modifica todos os dias. E eu não me guardo de sentir a minha dor. Quero mais é que doa mesmo. Porque sentir a dor que eu sinto quando acordo de manhã é que me dá força pra levantar da cama e tentar fazer com que a vida das outras pessoas seja diferente e melhor que a minha.
Aceitar a dor e viver com ela é o único jeito de viver. A superação é uma mentira.

Por isso, toda vez que eu vejo um exemplo de superação, eu sei que qualquer que tenha sido o problema que a pessoa enfrentou, não doeu tanto assim. Ou então não fez o efeito que deveria ter feito. Porque dor não se supera, se carrega.

Categorias: Sem categoria | Deixe um comentário

Eu já sei que é bom, obrigada.

Eu não sou mãe de primeira viagem. Esta não é a minha primeira gravidez. Meu primeiro filho nasceu prematuro e faleceu alguns dias depois na UTI neonatal. Esta é a minha segunda gravidez, meu segundo filho.
Estou dizendo isso porque me incomoda muito quando pessoas que me conhecem e sabem da minha história me encontram grávida e dizem “ai, que legal, você vai ver como é bom ser mãe”. Eu não respondo, dou só um sorrisinho, sabe? Mas a minha vontade é dizer que eu sei como é bom ser mãe, eu sou mãe. O fato de meu filho ter falecido tão cedo não anula a existência dele, o fato de eu nunca ter podido dar banho ou trocado as fraldas dele (somente as enfermeiras da UTI podiam fazer isso) não anula a minha maternidade. Eu estava lá, do lado dele, quando me era permitido pelos médicos, segurando a mãozinha dele. E era assim que eu era mãe. E ainda sou. Não é porque ele morreu que eu deixei de ser mãe dele, ele ter ido embora não significa que eu não sou mãe. Então nada justifica uma filha da puta do caralho aparecer na minha frente e dizer que eu vou ver como é bom ser mãe. EU SEI QUE É BOM SER MÃE! EU SOU MÃE!
Eu sei que as pessoas não dizem isso por mal. Mas me faz mal. Então eu só precisava desabafar.

Categorias: Sem categoria | Deixe um comentário

Não é b*$t@ pra qualquer c#.

Você deve estar achando que o nome do blog é uma falta de educação da minha parte, afinal de contas quem não gosta de uma visitinha em casa? Mas, pra provar que eu não estou errada, nesse post eu vou contar a história da minha tia Olga. A Olga é casada com meu tio Fernando, o irmão mais rico do meu pai, há uns 30 anos. Desde que eu sou criança, a tia Olga nunca foi gente fina. Na hora do almoço de família, a tia Olga começava a contar da hemorróida dela pra gente, só pra ninguém comer e sobrar tudo pra ela levar pra casa dela. No Natal e ano novo, a tia Olga ligava pra todo mundo com 20 dias de antecedência avisando que a festa ia ser na casa dela mas não avisava a minha mãe de jeito nenhum, não convidava nem a pau. Quando a minha mãe comprou um video-cassete de quatro cabeças no consórcio da Arapuã, a tia Olga enlouqueceu e fez o tio Fernando comprar um igual. A mesma coisa aconteceu quando a gente comprou uma geladeira duplex, microondas e até um sofá fuleiro. Nós morávamos de aluguel, a tia Olga tinha casa própria. Daí minha mãe financiou um apartamento de dois quartos e a gente se mudou pra um prédio. A Olga quase morreu, fez o tio Fernando vender a casa deles (que tinha uns 5 quartos) e comprar um apartamento porque ela também tinha que morar em prédio. Quando eu passei no vestibular, a tia Olga falou mal da PUC. Mas quando os filhos dela não conseguiram passar nem na Unip, a conversa mudou. Quando eu fui ao salão e cortei o cabelo, a tia Olga catou a tesoura e picou o cabelo das filhas dela. Quando eu furei minha orelha, tia Olga falou que quem fura a orelha fica cego… e no outro dia levou as filhas dela pra furar também. Quando eu fiquei noiva, tia Olga enlouqueceu. Surtou bonito. Perguntava pra todo mundo qual era a espessura da minha aliança mas ninguém soube informar. Então ela organizou um churrasco na casa de uma outra tia minha, a Jane, sem o conhecimento de ninguém, fez o tio Fernando comprar carne, refri e cerveja, armou o circo e ligou lá em casa às 11 da manhã do domingo me avisando que eu tinha que ir lá porque era o churrasco do meu noivado. Graças a Deus, eu tinha plantão no hospital nesse dia, falei que ia trabalhar e nunca apareci. Como ela não conseguiu ver a minha aliança no churrasco-fail, ela apareceu lá no P.S. que eu dava plantão. Tinha um cara acidentado numa maca, uma grávida dando a luz e um menino com suspeita de dengue hemorrágica, mas a tia Olga chegou toda feliz pedindo pra entrar rapidinho só pra ver a espessura da minha aliança. Saiu pisando duro, porque era mais grossa (beeeem mais grossa) que a dela. Tio Fernando precisou comprar outro par.

Não para por aí. Quando eu marquei meu casamento e enviei os convites, Olga ligou pro meu pai e disse que casar era tãããão antiquado. Meu pai não tinha mais contato comigo todo dia, então não deu moral. Ligou pra minha mãe e disse a mesma coisa: “Luísa, não deixa essa menina casar! Hoje em dia as pessoas só vão morar junto!”. Minha mãe não deu moral. Por fim, tia Olga me ligou e me disse a mesma coisa. Eu agradeci o conselho, mas disse que eu e meu noivo queríamos mesmo era nos casar na igreja, tudo direitinho. Tia Olga se enfureceu! “Pois então que você não faça nenhuma festa! Ninguém quer ir em festa!”. Eu fiz festa. Olga infernizou o namorado da filha dela por 5 anos até ele casar com a menina na igreja, e com festa. Minha lua de mel foi uma viagem pra praia. Tia Olga mandou a filha dela com o namorado (que tava namorando a menina há duas semanas) com tudo pago pra mesma praia no mês seguinte.

Meu primeiro apartamento era uma quitinete, perto do hospital onde eu trabalhava. Pequeno, sem nada de chique, prédio antigo. Eu ganhava muito pouco no hospital, recém formada, meu marido também não ganhava bem, a gente tinha o que dava pra ter. Assim que eu cheguei de lua de mel, tia Olga começou a telefonar. Todos os dias. Eu não atendia. Eu tinha 10 dias de casada, ia voltar a trabalhar em uma semana, queria curtir meu marido só um pouco… mas a Olga, ah, a Olga infernizava. Numa noite, às 22:30 hs, minha tia Jane (também cunhada da Olga) me liga sem graça, pedindo desculpa pelo horário e diz: “é que a Olga tá aqui no portão de casa, com o carro ligado, dizendo que tá indo na sua casa conhecer seu apartamento. Eu só queria saber se tem algum problema a gente ir agora”. Chegaram lá em casa às 23 horas. Não, isso não é hora de visitar ninguém. Chegou, olhou o apartamento inteiro e saiu de lá aliviada porque era só uma quitinete.

O tempo passou, a Olga me deixou em paz por longos anos, de vez em quando ameaçava aparecer mas nunca veio. Até que há três meses atrás ela me encontrou no supermercado. Era compra do mês, meu carrinho tava mais do que cheio e ela achou aquilo um exagero. Ligou pra família inteira pra dizer que eu esbanjava no Walmart. Depois me viu saindo do estacionamento (dei um tchauzinho de longe, que eu sou educadinha) e quase infartou porque viu meu carro. Aproveitou o telefonema já citado pra dizer que meu marido deve ter ficado rico porque ela achava que eu ainda dirigia “aquele uninho que ela comprou quando trabalhava no hospital e não um baita dum carro daquele que ela nem sabe o nome direito”. Em tempo: eu fico sabendo de tudo isso que ela fala porque a tia Jane, tão fofoqueira quanto a Olga, liga pra minha mãe e acaba dando com a língua nos dentes.
E foi nessa ligação da Jane pra minha mãe que acabou se dando a notícia de que eu estou grávida. Tia Jane se animou, disse que ia me visitar e perguntou pra minha mãe se eu ainda morava naquele predinho no centro. Lógico que não. Ninguém mora numa quitinete por 8 anos: “A Sofia já mudou de lá faz tempo, Jane. Eles compraram um apartamento alí no Lago. Eu achei que você já tinha ido lá conhecer.”

PÁRA! PÁRA! PÁRA! PÁRA! (momento João Kléber). “Como assim, a Sofia mora na orla do Lago? Vocês tem idéia de quanto custa um apartamento no Lago? É mais de um milhão e meio.” (Né nada, eu não paguei nem um sexto desse valor no meu apartamento, mas a loucura coletiva das tias fez com que se espalhasse a notícia de que a Sofia tem um apartamento de um milhão e meio na orla do lago). Deste dia em diante o inferno começou. A Jane veio visitar, viu que era um apartamento normal, mas contou pra Olga com uma exagerada básica. A Olga, ao invés de ligar como uma pessoa normal e dizer que quer fazer uma visita, não. Ela começou a ficar de tocaia, pra tentar descobrir que horas eu estaria em casa. Na primeira tentativa dela, fracasso total. Eu tinha ido fazer uma ultrassonografia e o porteiro disse pra ela que não tinha ninguém em casa. Na segunda tentativa, fail. Eu tô naquela fase de dormir muuuuito durante a gravidez, então eu desliguei o som do meu telefone e apaguei. Quando acordei, tinha 13, sim, 13 ligações não atendidas, todas da tia Olga. Então, mais uma vez na calada da noite, a tia Olga resolveu agir. Apareceu na casa da minha mãe era quase meia noite e disse: “Ai, eu vim aqui pra você me acompanhar até a casa da Sofia”. Minha mãe tava de camisolão, falou pra ela que tava tarde e, respeitosamente sugeriu que ela me ligasse no outro dia pra combinar a visita. Enfim, no outro dia eu resolvi assumir o controle da situação, liguei pra Olga e disse que ela poderia vir me ver naquele dia. “Ai, queridinha, a tia tá meio ocupada aqui mas eu vou sim, qualquer hora eu apareço pra te ver, tá?”. Ela chegou em exatos 12 minutos.

A mulher entrou no prédio e surtou. A diferença do predinho no centro onde eu morava há 8 anos e o prédio na orla do lago, obviamente, é gritante. Quando a mulher entrou no meu apartamento, ela não conseguiu disfarçar o despeito. E aí eu fiquei com dó, não dela, mas da Clarisse, filha dela, porque tudo que ela olhava na minha casa, ela dizia “ai, a Clarisse não tem fogão inox” ou “a Clarisse tem um lençol igualzinho ao da sua cama” ou “eu vou falar pra Clarisse que ela precisa comprar cortinas iguais a essas”. Sinceramente, eu duvido que a Clarisse queira alguma coisa igual as minhas, ela tem a vida dela, a casa dela, as coisas dela… imagina que saco sua mãe ficar comparando sua casa com a da sua prima que você nem tem contato. Enfim, tia Olga andou por todos os cômodos, entrou até nos banheiros e passou a mão nos azulejos, abriu meus armários, examinou o quarto do bebê, olhou a marca dos eletrodomésticos, tirou o sapato pra sentir o piso.
Depois de duas horas de inspeção domiciliar (porque foi isso que ela fez), a Olga foi embora. Mas não sem antes nos deixar com a pérola de sua sabedoria: “Essa sua casa não é bosta pra qualquer cu”.

Na semana seguinte, os copos aqui de casa começaram a quebrar sozinhos. Pesquisei no Google e fiquei sabendo que isso é sinal de mal olhado. Tomei banho de sal grosso, levei uma garrafa d’água na igreja e pedi pro padre benzer. Lavei a casa com água benta e bebi o resto. Acho que deu certo.

(P.S.: Os nomes das pessoas na história e os detalhes não foram modificadas. Espero que a tia Olga nunca encontre esse blog. Mentira. Espero que ela encontre, leia tudo e perceba o ridículo que ela passou.)

Categorias: Casos de Família | Deixe um comentário

Viva las Gaygas.

Hoje é dia dos pais. Não é querendo desmerecer, não, mas ô diazinho inútil. Não é igual dia das mães… dia das mães é especial porque é a sua mãe, porra. Ela pode ser chata, pode implicar com o seu cabelo, pode reclamar do seu bafo e falar mal do seu marido… mas é a sua mãe. Se sua mãe morreu, aí é que fica aquela choradeira no dia das mães…
Dia dos pais não é assim. Tá, tem pai que é legal, tem pai que é quase uma mãe. Mas a infinita sabedoria do Baby Sauro já dizia: não é a mamãe! E não é mesmo. Não é porque eu vou ser mãe que eu quero me achar a mais importante, meu marido vai ser, sem dúvida, um ótimo pai, melhor que eu em muitas coisas, mas eu tenho certeza que mesmo assim, eu vou ser a maioral aqui em casa, porque eu sou a mãe! Só por isso.
Meu dia dos pais nunca foi nada muito grandioso. Meu pai foi uma pessoa por 30 anos. A gente achava que ele era gente boa. Ele era um pé no saco, não deixava a gente assistir o programa da xuxa sem criticar a cada 10 minutos,acordava domingo de manhã cantando Caetano (puta que pariu! eu queria dormir e aquela merda daquele disco tocando aquela música chata), se achava o mais inteligente e super jovem… enfim, era um chato mas tava lá junto quando era a hora de estar junto. Até que um dia a gente descobriu que na hora que ele não tava junto, é porque ele não era ele. Meu pai tinha uma identidade secreta. De dia ele era o homem-chato e de noite… bem, de noite ele era a Francisca.
Não é fácil saber que seu pai é a Francisca. Primeiro que você fica pensando há quanto tempo ele virou a Francisca. Daí você percebe que ele sempre foi a Francisca, desde quando você era criancinha, era óbvio, ela era fã de Caetano! E então, você se descobre capaz de realizar tarefas como socorrer a coitada da sua mãe da depressão profunda e se esquivar do bullying familiar (acredite, os parentes acham engraçado quando a sua família – ou o seu pai, no caso – se fode). Daí chega uma fase que você fica com medo de ser hereditário, sei lá, eu sempre fui a Sofia, mas e se de repente, do nada, eu quiser ser o Genésio? Mas nem dá tempo de se apavorar, porque a sua mãe tá sofrendo chacota das cunhadas e tentou se matar de novo, e daí você aproveita pra perguntar pro psiquiatra da sua mãe, durante a consulta, se você vai virar o Genésio e ele diz que não, que se na sua idade você sempre foi a Sofia, não dá mais tempo de virar Genésio. E a sua mãe fica mais bolada ainda, porque isso significa que ela se casou com a Francisca já estabelecida. E os parentes se divertem. A fofoca come solta. A Francisca solta a franga, sai do armário, larga o emprego na firma e vira ator de teatro. Sua mãe vai pro hospital. Seus irmãos entram em choque e não querem mais ir a escola. E você… bem, você pega o seu salário de estagiário e tenta fazer uma compra no supermercado, porque a essa altura já não tem nem leite mais na geladeira e sua irmã ainda é criança e tá absolutamente largada por conta da confusão.
Acredite, essa fase dura muito, muito, muito tempo. Lá em casa durou uns 3 anos. Depois que tudo passa (quase tudo, algumas coisas, como o bullying dos parentes, ficam pra sempre) e as coisas entram no eixo, você percebe que nada mais vai ser como antes, principalmente o dia dos pais. Eu não liguei pro meu pai hoje. Meus irmãos não ligaram pra ele também, mesmo porque eles já tem os seus próprios filhos. Minha irmã, que na época era criança, hoje já uma moça, me disse que tava pensando em ligar mas que não tinha se decidido ainda. Acho que não ligou.
Que fique bem claro que eu não tenho nada contra quem quer ser uma Francisca, Estela, Jandira ou Maria Pia. Só tenho contra se fazer de Evaristo e enganar uma série de pessoas. E foi isso que aconteceu lá em casa. Antigamente eu tinha muita raiva porque nunca, nenhuma vez, em todos esses anos, a Francisca nos pediu desculpas pelo que nos fez passar. Hoje eu percebo que não houve e nunca haverá um pedido de desculpas porque ele nunca se sentiu culpado, na verdade ele nos culpa até hoje por ter escondido a Francisca todos esses anos.
Talvez no ano que vem eu ligue pra ele no dias dos pais e peça desculpas. Talvez eu compre um disco de presente e envie um bilhete com os dizeres: “Foi mal, Francisca. Espero que esse cd do Ricky Martin amenize a sua dor. Feliz dia dos pais.”

Categorias: Casos de Família | Deixe um comentário

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com. O tema Adventure Journal.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.